Compartilhando as Letras » 2008 » dezembro
3
dez
O Verdadeiro Você


 

Um homem só se conhece em duas situações: quando está sob a ameaça de uma arma ou quando quer conquistar uma mulher. Há quem diga que existe um terceiro teste: como o homem reage diante de um vitral da catedral de Chartres. Pode ter sido um materialista incrédulo a vida toda, mas diante de um vitral da catedral de Chartres se descobre um místico — ou não.
Sei de céticos que, com certa luz do entardecer batendo nos vitrais da catedral de Chartres, chegaram a levitar alguns centímetros, até racionalizarem a situação e voltarem para o chão. Mas só nos conhecemos, mesmo, na frente de uma arma ou atrás de uma mulher.
Você pode argumentar que ambas são situações de descontrole emocional.
Errado: o descontrole é o homem. O controle é o disfarce. Você deve se julgar pelo seu comportamento quando enfrentou a possibilidade da morte ou quando estava a fim da (o nome é hipotético) Gesileide. Aquela vez que você se escondeu atrás de um poste para ver se ela chegava em casa com alguém. Meia-noite e você atrás do poste, sob o olhar curioso de cachorros e porteiros, fingindo que lia a lista do bicho no escuro.
Aquele imbecil — e não esse cidadão adulto, respeitável, razoável, comedido, talvez até com títulos — é você. Tudo o mais é a capa do imbecil essencial. Tudo o mais é fingimento. Você nunca foi tão você quanto atrás daquele poste.
Pense em tudo o que você já fez para conquistar uma mulher. Os falsos encontros casuais, cuidadosamente arquitetados. Os falsos telefonemas errados, só para ouvir a voz dela. (”Telefonei para você? Onde eu estou com a cabeça!”) As bobagens que você disse, tentando impressioná-la.
Pior, as bobagens que você ensaiou em casa e disse como se tivesse pensado na hora. O que você lhe escreveu, sem revisão ou autocrítica.
Aquele ridículo era você. Os dias e dias que você passou só pensando nela. O país desse jeito, e você só pensando nela. Sem dormir, pensando nela. Tanta coisa para fazer, e você escrevendo o nome dela sem parar.
Gesileide (digamos), Gesileide, Gesileide… E as mentiras? E a vez que você inventou que era meio-primo do Julio Iglesias?
E o que você sofreu quando parecia que não ia dar certo? Como um adolescente. Aquele adolescente era você. Isso que você é agora é o disfarce, é o imbecil essencial em recesso provisório. Só o vexame é autêntico num homem.

- Luis F. Veríssimo in “Mentiras que os homens contam”

2
dez
Arte Poética


 


Aguarda o sopro
.
Vem comigo, amigo poeta,
Repousa aqui neste galho…
Não te apresses, meu pateta,
Poema bom dá trabalho…
.
Antonio Lázaro de Almeida Prado
(Do livro: Arte Poética para Passarinhos

Trinado novo
.

Nunca esperes obra prima
Em trinado de improviso
Na garganta brota a rima,
Que requer sopro e o… siso…

.
Antonio Lázaro de Almeida Prado

(Do livro: Arte Poética para Passarinhos )

.
Lição de sonho
.
Aprende comigo, amigo
A vencer tortura e dor:
É sempre assim que consigo
Ser real e sonhador…
.
..
Antonio Lázaro de Almeida Prado
(Do livro: Arte Poética para Passarinhos )
.
.
Sem rancores
.
Guardas rancores na alma?
Teu cantar será viciado!
É do recesso da calma
Que o canto surge apurado…

.
Antonio Lázaro de Almeida Prado
(Do livro: Arte Poética para Passarinhos

1
dez
Fragmentos de Caio Fernando Abreu


Eu preciso muito muito de você,

eu quero muito muito você aqui

de vez em quando, nem que seja muito de vez em quando,

você nem precisa trazer maçãs

nem perguntar se estou melhor,

você não precisa trazer nada, só você mesmo,

você nem precisa dizer alguma coisa no telefone,

basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio,

juro como não peço mais que o seu silêncio

do outro lado da linha ou

do outro lado da porta ou

do outro lado do muro.

Mas eu preciso muito muito de você.

.

Caio Fernando Abreu

1
dez
Se maravilhando com Fernando Pessoa


.       

 

O sonho é ver formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
.
Fernando Pessoa

.

O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão…

São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza

Fosse árvore e, uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.
.

Fernando Pessoa

 

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