
Abelardo era apelidado de ” pássaro errante”. Intelectual fulgurante, figura central das discussões filosóficas em Paris, motivo de inveja, ódio e paixões. Assim Heloísa o descreve , numa carta para ele mesmo:
Que reis ,que filósofos tiveram renome igual ao teu? Que país , que cidade, que aldeia
não se mostrava impaciente em te ver? Aparecias em público? Todos se precipitavam para te ver.Partias? Todos te procuravam seguir com seus olhos ávidos. Que esposa, virgem, não terá abrasado por ti em tua ausência e incendiado em tua presença? Possuías, sobretudo, duas qualidades capazes de conquistar todas as mulheres: o encanto das palavras e a beleza da voz. Não creio que outro filósofo as tenha possuído em tão alto grau.”


Heloísa , jovem adolescente dotada de raras qualidades intelectuais, vivia em Paris, na casa de seu tio. Esse desejoso de lhe dar a melhor educação, contratou Abelardo como seu tutor intelectual. Mas as lições de filosofia duraram pouco. Logo os dois estavam apaixonados. E Abelardo filósofo de rigor lógico imcomparável, se transformou em poeta. Heloísa tomou conta de seu pensamento e de seu corpo e, a partir de então, segundo ele mesmo confessa, nele só se encontravam “versos de amor e nada dos segredos da filosofia.”
O tio, ao descobrir o que acontecia em sua casa, sentiu-se enganado e se enfureceu. Interrompeu as “lições” e proibiu que eles se vissem de novo. Inutilmente. A distância não apaga, ela acende o amor. E o próprio Abelardo comenta: ” A separação dos corpos levou ao máximo a união dos nosso corações e, porque não era satisfeita , nossa paixão se inflamou cada vez mais.”
Mas, Heloísa ficou grávida. Abelardo resolveu raptá-la e levá-la para um lugar distante. De noite, retira-a da casa do tio e a leva para a casa da irmã dele , em Palet, distante 400 quilômetros de Paris. É lá que nasce o filho do seu amor. Casam-se secretamente no dia 30 de julho daquele ano.
Mas, para o tio de Heloísa , o acontecido exigia vingança. Planeja então a maior de todas as vinganças possíveis. Contrata um bando de marginais que invadem a casa de Abelardo e o castram. Pensava ele que, assim, colocaria um fim àquele amor, . Inutilmente. Continuam a se amar pelo resto de suas vidas. Com o poder da memória e da saudade – até que a morte os unissem eternamente. Como no filme As pontes de Madison. Só que, no filme , o instrumento da castração não foi o ódio de alguém,mas o amor piedoso por alguém.
Abelardo morreu aos 63 anos , em 1142. Heloísa, ao saber disso, exige para si a posse de seu “homem”. Na verdade era isso que Abelardo havia-lhe pedido. ” Quando eu morrer“, ele lhe escreveu,” peço-te que procures transportar o meu corpo para o cemitério da tua abadia…”. E Heloísa ordenou que, uma vez morta, seu corpo fosse enterrado no túmulo de seu marido. O que aconteceu 21 anos depois.
Conta-se que, ao ser levada para o túmulo, quando o caixão de Abelardo foi aberto, ele abriu os seus braços e a abraçou.
Livro: Retratos de Amor
Rubem Alves- Papirus Editora-
5ª Edição–2004
