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17
mar
A Transformação do Milho em Pipoca

Sinceramente eu gosto muito deste texto de Rubem Alves, acho que ao longo dos anos ,nós, seres humanos, vamos nos moldando e, aperfeiçoando. Se ontem pensávamos de uma maneira, hoje após observarmos o comportamento e o desenrolar da história, já mudamos nossa opinião. Creio que, essa reflexão, essas observações e esse jeito de ver as coisas, muito contribuem para nosso crescimento pessoal.

A vida é uma constante mudança, se víamos alguém com maus olhos, hoje, após observarmos seu jeito de ser, sua maneira de conduzir uma situação, já voltamos nosso olhar com mais cuidado ,atenção e, eu diria  que, até com admiração. Muitas das vezes a luta que travamos, contribuem para nosso crescimento profundo, para olharmos de um outro prisma para alguém ou alguma situação.

Pensando em todas essas considerações, coloco aqui para vocês, um texto maravilhoso do Rubem Alves. Leiam e meditem se eu não tenho razão:

/

A Pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.(…)

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida…). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.(…)

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ – dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira... (O amor que acende a lua, p. 59.)


Fonte do texto:  A casa de Rubem Alves

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Fernandez

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março 18th, 2010 às 12:15 am
1

Olá Sônia querida!
Adorei o texto. A simplicidade da expressão foi linda.
Gostei da divertida comparação entre idéias e pipocas. Só alguém com muita sensibilidade e competência o faz com tamanha propriedade.
Lindo post querida.
Beijo no coração, Fernandez.

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Sérgio

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março 18th, 2010 às 1:11 am
2

Apesar de estar em constante mudança, como um milho dentro desta panela fervente, por vezes sou um “piruá”, que insiste nos mesmos erros e em não mudar; conforme a panela esquenta, vejo que minha pipoca começa a estourar. rs*
Belo post!!!

Um forte abraço!

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Rosana Madjarof

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março 18th, 2010 às 3:18 am
3

Sonia,

Que texto magnifíco!

Eu não conhecia esse texto, mas li atentamente, e fiquei encantada.

A vida é cheia de metáforas, e se pararmos para pensar e refletir, perceberemos que somos como milho de pipoca, realmente.

Alguns se esforçam mais, e assim sendo os grãos estouram rapidamente, fazendo brotar idéias e pensamentos evolutivos e construtivos. Outros porém, são como os piruás, e por mais que se esforcem, não conseguem estourar, ou seja, não evoluem e não deixam nascer pensamentos e idéias que poderiam mudar-lhes a vida.

Eu prefiro acreditar que sou como milho de pipoca de alta qualidade, pois quero estourar até queimar os miolos… rsss

Sensacional!

Bjs.

Rosana.

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LISONN

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março 18th, 2010 às 4:20 am
4

Que Post Fantástico!
Amiga SONIA REGLY, terminei de fazer uma fascinante viagem no mundo das pipocas. A riqueza da narrativa é tão sublime e envolvente que somos transportados a acontecimentos tão profundos sem nos dar conta, é a sensibilidade do autor que toma conta do texto. Hoje, fiz uma leitura inesquecível, o piruá não vou esquecer!
Parabéns por mais um magistral Post!
Contagiou. Mexeu. Valeu.
Abraços,
LISON.

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Diego

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março 18th, 2010 às 2:31 pm
5

Oieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee que saudadeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee quer dizer que fds vamos ter lasanha é? Hummmmmmmmmmmmmmmm EEEEEEEEEEEEEBAAAAA …rs Estamos morrendo de saudade de vocês !!! Nosso blog nao ta mais indo para o Ocioso ..rs Poxa o) agora evinha descobriu o que tava dando erro GRAÇA A DEUS … EEEEEEEEEE woohoo beijooos

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Vera

Oba!!! Já comentou 5 vezes.

março 19th, 2010 às 3:09 am
6

Sonia,olá!
Que beleza de texto você escolheu! Gostei muito. Como Lison, não vou mais esquecer esta metáfora – como a pipoca pode ser mais uma forma de apresentar a Fênix.
A gente passa mesmo por algumas “provas de fogo” para se expandir, romper a casca e se transformar, não é mesmo? Já é uma grande transformação, quando deixamos de julgar outros, por vermos que nossos conceitos podem estar teimando em permanecer “piruás”!
Grande abraço, Vera.
abraço grande

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Vanessa

Oba!!! Já comentou 2 vezes.

julho 17th, 2010 às 7:20 pm
7

Que delícia.

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Sonia Regly

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fevereiro 10th, 2011 às 2:02 am
8

A Transformação do Milho em Pipoca http://migre.me/3QHvS

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Sonia Regly

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março 29th, 2011 às 1:57 am
9

@rutevera A Transformação do Milho em Pipoca http://i9v.me/24sx

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Sonia Regly

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abril 3rd, 2011 às 3:28 am

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Sonia Regly

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novembro 28th, 2011 às 1:19 am
11

@pautajornal A Transformação do Milho em Pipoca http://t.co/wGBOVX5r

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Sonia Regly

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novembro 28th, 2011 às 1:19 am
12

@Prof_Adail2012 @petescadas @fernandopenin A transformação do milho em pipoca. http://t.co/wGBOVX5r

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Sonia Regly

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novembro 28th, 2011 às 1:20 am
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@Dolberti @RitaScoelho @fatimabotelho @ReginaEscritora A transformação do milho em pipoca http://t.co/wGBOVX5r

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Sonia Regly

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novembro 28th, 2011 às 1:21 am
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@Rute_Albanita A transformação do milho em pipoca http://t.co/wGBOVX5r

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Sonia Regly

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novembro 28th, 2011 às 1:26 am
15

Grata! RT: @petescadas: gente linda @sonia_regly @Prof_Adail2012 @fernandopenin A transformação do milho em pipoca. http://t.co/wGBOVX5r

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